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BRASIL, Homem, de 26 a 35 anos



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Devaneios de uma Mente Entorpecida por Chocolate Barato e Café Descafeinado


 

Não foi possível completar esse título

Não reconheço novos amigos Meu mundo virou frases de efeito Axiomas contraditórios Pequenas ideologias expostas em videoclipes Um eco em silêncio

Uma repetição da nova fórmula da nova tendência da neo-pós-retaguarda-clássica

Uma poesia CTRL + C / CTRL + V

Abri a porta você não entrou Dei-te a mão você sorriu Ofereci chá turco você abriu uma cerveja 10encontros depois nunca mais chegamos no horário

Quando seus sonhos se realizam é porque ao acordar você não se lembra do seus sonhos

No calçadão de qualquer cidade do interior Centenas de dezenas de sacolas carregadas por centenas de dezenas de pessoas ávidas por ter o que colocar ou usar o que está dentro das centenas de dezenas de sacolas E ainda buscamos sentido

Opiniões tão distantes sobre um mesmo evento que é preciso inventar uma neo-pós-dialética contemporânea

Ver o mundo não combina com entender o mundo

A revolução pela inteligência ou viva o status quo

Uma arma de fogo é o argumento definitivo de que o homem não acredita no homem

Tenho receio de dormir de perder tempo de não ser produtivo de descansar a alma de perder a calma de acordar tarde de beber cerveja de ganhar peso de tomar remédio de pedir ajuda ao policial de andar sozinho de comprar pela internet de beber café com açúcar de sexo com camisinha de beijo sem língua de padrões de educação artística de discursos feitos palavras benditas promessas repentinas e criança vestida como adulto

Qualquer ideologia perverte a liberdade

Toda liberdade é ideológica

Cale minha boca com um beijo

 



Escrito por Carlos Canhameiro às 03h38
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Segundos

Não me veio a inspiração então acreditei no amor como construção Planta Desenhos Esquadros Materiais Alicerces Cálculos Escavações Previsões Cronogramas Orçamentos e durante a engenharia do amor me apaixonei e o muro que era plano ficou plano

Em minha pele beijada há mais amor do que em sua rima quadrada

Fascínio por um tema Por uma centelha de esperança Por uma métrica simplificadora Simplista Por um

Se é possível então todos podem

Outro dia chorei por um amor que descobri quando havia acabado Ao subir dos letreiros Como se ao chupar um picolé descontraidamente no calçadão estivesse escrito no palito acabas de lamber todo o seu amor

Outro dia o amor chorado ou a razão pelo choro descoberto reapareceu como visita inesperada Amostra grátis de jornal que é entregue em seu endereço sem consulta e ainda assim você lê durante o café da manhã Como desconhecido não se disse amado ou sem saber do amor descoberto cobriu-se de um presente ascético e bebemos suco de laranja enquanto discutíamos as tragédias diárias

O mundo dá voltas mas não oferece retorno

Censura disfarçada de  bom senso / Bom senso mascarado de problema seu

Ao dizer que a amava não estava rogando uma praga

A literatura não pode salvar nosso amor Mas pode libertá-lo do ódio

Samantha tinha dois filhos um gato uma cozinha equipada um carro na garagem um amigo de infância um trabalho meio período e nenhum orgasmo Sorria feliz depois de engolir a porra do marido

Sua conduta está em exposição nas vitrines da Tok & Stock

Minhas palavras de ordem nunca mancharam uma folha de papel

Valéria era solteira lasciva sensual e destemida Nenhuma linha foi escrita sobre ela mesmo depois da vida livre que viveu

Para ser alguém na vida é preciso que muitos abram mão de suas próprias vidas Quem consegue viver com as mãos fechadas

Na palma da mão um coração

 



Escrito por Carlos Canhameiro às 01h38
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O mundo não precisa de novos textos

Quando eu era cristão já não acreditava em deus

Quando eu era ateu já não acreditava em mim

Quando eu era já não acreditava

Em busca de novos fascismos: proibir a escrita de novos livros proibir a regravação de velhas músicas proibir comédias românticas proibir remontar clássicos proibir teorias marxistas proibir teorias fascistas proibir seis novelas por dia proibir a entrega dos jornais impressos proibir especialistas em assuntos subjetivos proibir evangélicos de opinar sobre política pública proibir blogs e twitters e facebooks e youtubes

Só para o mundo ter com o que se preocupar de mentira

Os poetas são felizardos porque mesmo a dor a tristeza o horror e a solidão eles conseguem transformar em amor (nem que seja pelas palavras)

É possível não extrair uma única emoção verdadeira durante toda uma vida e ainda sim crer no amor e no gerúndio

Sou acusado de não ser quem aparento ser Os acusadores usam máscaras

Fui molestado quando criança com a conivência dos meus pais Eles me deixavam assistir ao Xou da Xuxa

Tenho medo de falar dos outros No mundo tão individual e com características tão perfiladas parece mais sensato a autopromoção mesmo que seja sobre a subjetividade emocional Meu heterônimo não me conhece mas sei onde ele passou as últimas férias

Vovó não era sábia e a idade nada lhe trouxe de especial exceto o conhecimento na pele do tempo decorrido Porém todas as vezes que digo alguma de suas frases o entorno ouve com certa reverência A sabedoria envelhece como os vinhos Algumas dão bons vinagres

Sinto uma falta danada da minha mãe Não sei como seria se acaso estivesse viva Por puro egoísmo às vezes quero alguém que me ame incondicionalmente e que enxugue minhas lágrimas quando não quero chorar Minha mãe faria isso por puro egoísmo materno

Quando eu não escrevia era mais sincero



Escrito por Carlos Canhameiro às 01h17
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De olhos fechados não reflito

Há quem diga que existem inúmeras formas de dormir

Há quem acredite em tudo que há quem diga

Aquele do outro lado do espelho começa a desconfiar de que não sou sua exata imagem Inconformado desiste da árdua e estúpida tarefa de ser a cópia de alguém e passa a viver sua própria vida Eu desreflexado perco-me no intervalo entre existir e espelhar Ninguém a minha volta percebe qualquer alteração

Meu reflexo ou o alguém cujo reflexo sou eu caminha à vontade nas paulistanas avenidas carregando a estúpida crença de que só por saber-se livre de fato se é

Ainda não sei se o invejo ou se desisto de criá-lo ou se nunca mais reflito

Enquanto ele caminha Meu espelho tem escrito em batom vermelho um último recado Te adoro e não sei quando volto

E na ausência do reflexo-eu ou o eu cujo reflexo sou Perco-me nas antigas e permanentes idéias do fim do começo do começo sem fim do fim sem qualquer começo

Na esperança inconveniente ao acreditar que por saber a gênese o apocalipse está garantido ou poderá ser evitado Ou o apocalipse revelado a gênese será apenas um retrocesso científico

Aquele meu eu-reflexo ou vice-versa já tem andado cansado da vida É o que acontece aos espíritos sem reflexão

Aguardo-o sem maiores ansiedades Escrevi um bilhete de boas vindas e colei no espelho Senti sua falta Por estranho que pareça você me completa Apague a luz



Escrito por Carlos Canhameiro às 03h16
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Marlise

Bonito

Como a palavra Como o Rodrigo Como meu desejo de um texto bonito

Um acúmulo de verbos pontos substantivos Um texto do texto que se pretendia bonito Uma meta da metalinguagem Clichê como todos Como teu texto pedido Como o Rodrigo Bonito

Naquilo que disseram ser minh’alma Ela se diz também aquilo que lê Como espelho cujo reflexo se constrói aos poucos Se descobre aos poucos Se embeleza aos poucos Metamorfose cujas palavras de um texto bonito atuam como tintas como peças de uma insensato quebra-cabeça Como o Rodrigo Como o desconhecido

É a metafísica a serviço do meu desejo de um texto bonito

São as palavras parindo meu universo finito

São as conexões que me desenclausuram do tédio reprimido

É para além do ser que clamo por um texto bonito

É para além do ter que desejo Rodrigo

Pode ser que seja tudo repetido Pode ser que estejamos velhos antes mesmos de nascidos Pode ser que não haja nada de novo Nem sob o sol tampouco sobre a lua Pode ser que eu escreva teu texto bonito Pode ser que tudo pode ser De todas as filosofias psicologias antropologias e matemáticas aplicadas Quero mesmo é teu sonho Rodrigo

É o teu toque Rodrigo que a cada segundo me faz querer um texto bonito

O meu gozo não pode ser o teu ponto final



Escrito por Carlos Canhameiro às 01h31
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sobre deus o Amor e outras simplicidades

Tenho pensado que o homem inventou deus para desfrutar do prazer de falar de algo/alguém sem fim sem tamanho sem cor sem começo Criar Criar Criar Não é o átomo Não é o próton Não é a membrana O músculo A poeira É tudo isso e muito mais Junto ou separado

Tenho pensado que o homem no afã de falar de deus sucumbiu num axioma perverso deus é Amor E depois deu-se conta o homem que o amor era muito muito muito maior que deus A estrutura aprisionante de tudo o que deus é ou era não aceitaria ser ele deus o amor Deus não poderia ser maior do que o amor deus não poderia explicar-se no amor

Tenho pensado que o homem reinventou deus e seu axioma O amor é deus Retomando ou recriando o prazer de desfrutar de algo sem tamanho e o tudo mais O amor é então o deus e todas as outras coisas lugares pessoas filosofias mistérios e ciências que o homem quiser Como se tudo se encerrasse no amor e o amor em nada

Tenho pensado que o homem pode ser Ateu e desse modo negar deus Se não nega não se importa Se não se importa ignora Se não ignora simplesmente não sabe Mas o homem não inventou ainda essa saída para o amor

Tenho pensado que esse jogo é infinito

Laboração da etérea palavra Que calcifica o choro Calcina o riso Vivifica a mágoa Alivia o tímido Resplandece a fé Desaconchega a dor Desassossega a(o) Pessoa Redime o gozo Aproxima a morte Consola o ébrio Desmistifica a paixão

Como o soldado que fala da arma do exercício da disciplina da estratégia da guerra

Como o alfaiate que fala da linha agulha tecido molde e costura

Eles todos falam

Tenho pensado que por isso escrevo

Tenho pensado logo não tenho amado

 



Escrito por Carlos Canhameiro às 01h24
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seu cheiro é seu desodorante

São tantas promessas de amor que creio apenas que o amor é feito só de promessas Uma matéria em suspensão A cada promessa a potência amorosa se dissipa no ar em busca de um peito que o acolha Um olho que o chore Uma boca que o beije Um encontro que o desminta Um adeus que o restitua à nova/velha promessa

Na dúvida lancinante sobre o papel do apego no amor Com desapego o amor se mistura e aquilo que era gozo pode não passar de engodo

Te vi e nos vimos e o silêncio das nossas palavras vazias foi enlouquecedoramente uma prova da nossa frugal tentativa de dar ao amor mais do que palavras vazias

Estava frio Nos olhos o resto da noite que acabara de começar Nos pés o futuro passo Andar na certeza de que ir ou voltar não depende das pernas A mente fora do compasso hoje ontem e amanhã história memória esquecimento esperança e frio distanciamento a ocupar todos os espaços em tempos intermitentes a lutar por cada segundo de atenção O frio que castiga a pele e não deixa incólume o coração quando se apodera do amor faz do desprezo brinquedo perto do estrago sem remorso ou contrição

A balança que pesa o amor contrapesa o desprezo

Faria da nossa história um romance Mas prefiro fazer do nosso romance um happening

No museu dos corações partidos a mesma exposição sempre sangue lágrimas e uma esperança sem data de validade

Existem infinitas declarações de amor Continuo com a mesma ainda a ser inventada

Não rejeite meu amor Não deboche da minha dor Dá-me um beijo e foda-se



Escrito por Carlos Canhameiro às 00h34
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[título de uma música do Beatles em Mandarim]

São tantas idéias perdidas Um ideiocídio é possível inventar A mesma necessidade de escrever dizer explicar

Dependente Viciado Adicto das idéias

Música para ninar Cadáver

Um grupo de apoio SA Suicidas Anônimos com nome RG Endereço e Motivos muito óbvios para morrer

A religião suicida O gozo de querer morrer A traição do devoto ao morrer Encerrar o mundo das idéias Entregar-se demais a morte

Uma multidão suicida que não se mata incentiva a morte Desanima a vida Onde ninguém morre mas tampouco vive Vive mas não como dantes Não como conhecíamos Homens cujo fiapo que lhes sustenta a vida é o prazer de cultivarem a morte A própria

Mórbido – Mordido É tão pequena a diferença para tamanha diferença

db

Estamos sedentos das mesmas sedes de outrora A água que nos oferecem hoje não parece feita para a sede de ontem Bebemos mas não estamos com o paladar pronto para elas As águas de abril maio júpiter ou as águas vermelhas cítricas nunca mais sensabor

Velhas formas como os velhos se não tiveram uma vida saudável definham e exigem trabalho dos novos para continuarem existindo ainda como velhas formas

Não é a manutenção do CAOS é a ostentação do HORROR

Mude de canal ou escolha outra idéia 



Escrito por Carlos Canhameiro às 01h23
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Parece existir o jeito certo para fazer a coisa errada

metade dos meus sonhos nunca sonhei metade nunca será realidade já outra metade sonhada metade dela virou realidade quando disse EU TE AMO

Não tenho outro futuro senão esses dias passados Essa certeza pequena de que não vale a pena Mesmo a alma grande Mesmo o corpo cansado Mesmo com tudo pronto Mesmo com a louça lavada A força que me tira da cama é a mesma que nela me nina antes do sol nascer

Quem diz EU TE AMO a cada segundo não ama Fala

Quem escreve EU TE AMO a todo instante não ama Propagandeia

EU TE AMO não é uma desculpa Não é um argumento Não é um fardo Não é uma promessa tampouco uma ameaça EU TE AMO não é nada São palavras Não é o EU TE AMO de verdade

Na receita entre parênteses diz ser possível substituir um ingrediente por outro exemplo farinha de trigo por farinha de milho ou farinha de arroz Ainda na espera da receita para corações partidos e a substituição de um amor errado por uma alegria passageira ou uma trepada sem culpa

Calei quando pensei ser melhor do que falar Falei quando  você decidiu calar O beijo era a única gramática admitida por isso falhamos na análise sintática

Sei que nunca seríamos felizes Tampouco seríamos triste para sempre

Guardo minhas longas histórias para embalar suas noites insones Por hora você dorme profundamente

 



Escrito por Carlos Canhameiro às 23h48
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Enquadrado

Ontem deixei de falar o que pensava sobre um assunto nada relevante para a vida dos debatedores Se opinasse geraria discórdia que geraria animosidades que geraria novas argumentações sobre um assunto nada relevante e então tudo tomaria proporções pessoais ofensivas defensivas sofismas seriam ditos como palavra de ordem Palavras de ordem calariam as melhores argumentações sobre o tal assunto nada relevante para a vida dos demais envolvidos e velhas feridas seriam exposta e novas amarguras seriam fecundadas e o ótimo café servido em xícaras vagabundas esfriaria em razão dos ânimos enfurecidos e uma grande parcela do tempo se passaria em troca de uma discussão inútil exceto para revelar toda nossa inútil existência e ainda assim preciosa a ponto de tornar um assunto nada relevante caso de vida e morte paixões e temores beirando o absoluto Então silenciei e por não emitir opinião fui rotulado de alienado desligado passivo e conformista

Mamãe não chorava com o drama das novelas mas não podia ver uma de suas rosas desfalecer sem deixar os olhos boiarem em tantas lágrimas ainda por escorrer Dizia sempre com voz embargada são as pétalas filhinho são as rugas

Transamos quase em silêncio Gozamos quase em segredo Dormimos quase em seguida e sonhamos que conversávamos sobre nosso amor

Em minhas veias correm palavras Meu coração é sempre um novo parágrafo Minha respiração é sentença escrita Minha boca saliva pontuação Na minha língua só resta o silêncio

Nossa amor virou literatura e como era foi um fracasso de vendas

Desaprendi a amar e como desculpa digo que isso me fez enfim descobrir o amor

Aceito quase todas as traições não porque sou pacífico consciente desapegado ou tranqüilo Aceito porque aceito Porque sentir-se traído é dar poder ao traidor Aceito mesmo quase todas Exceto a traição dos seus lábios

Outro dia prometíamos irresponsavelmente um futuro juntos um amor com filhos um trabalho com frutos uma casa com horta e cadeira de balanço um sexo diário mesmo só aos domingos uma conversa de madrugada mesmo que um estivesse dormindo Outro dia fomos responsáveis e não falamos mais disso e o futuro agiu como lhe é de direito levou consigo as promessas para outros irresponsáveis



Escrito por Carlos Canhameiro às 00h50
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Tenho em mim o mundo inteiro e não é nada

Todas as vidas não completam a minha porque a minha vida não completa a de ninguém Malabarismos de semáforo com angustias corriqueiras Falei de você ao beber moderadamente As palavras acompanharam os vinhos secas verdes ébrias fabricadas descartáveis e retornáveis

Todas as poses as sensualidades a impressionante espontaneidade Agora catalogadas Exibidas a exaustão Em quem podemos confiar A filosofia no avesso das afirmações concretas na contradição das superadas tradições Anti-relativismo com o vento a soprar em minha fenestra Anti-anti-pós-estruturalismo Enredos conhecidos e personagens arquestereotipados Não saber ser estar permanecer ficar segundos com uma idéia fixa mesmo que boba mesmo que vazia

Uma canção composta esquecida cantarolada ao descer os degraus do santo calvário Um alívio não imediato Precário Sentido inversamente proporcional ao apego Desejo que se esvai com o sol a lua a nuvem a neve a brisa a moça de saia o homem sem camisa Futilidades travestidas de erudição Valores negociados em não-presta-ação

Depois do sono não há de haver o acordar

Um jogo por inventar Árbitro Dados Facas Bolas Campos Linhas Regras a traçar Inventemos Alguém há sempre de vencer Uma estátua Um documentário Uma tese dissertação artigo Um método Um exemplo Um viaduto Um busto pedaço de bronze Orgulho dos pais Testemunho dos amigos Esperanças de um existir depois do deixar de existir

Você disse eu-te-amo em seguida comprou um sorvete de limão cruzou a rua sem vexame ou distração beijou seu homem na boca e piscou em minha direção Não sofri com a cena Não duvidei do eu-te-amo Não menosprezei o seu homem Não invejei o beijo Confesso impressionou-me a destreza da piscadela e irritou-me profundamente a conta da sorveteria

A sofrer uma maldição ver um vestido na vitrine e imaginá-lo a cobrir teu corpo

Ainda não decidi se compro todos ou desisto de amar um manequim

 



Escrito por Carlos Canhameiro às 22h43
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Polaroids Analógicas Almas Digitais

as pessoas nas fotos são outras não acredite nas fotos muito menos nas pessoas que nelas estejam simplesmente não acredite não medite não transite não hesite não

é um átimo um nada 1 segundo divido por 400/500... 3200. É isso que somos na foto e assim nos imortalizamos para o buraco negro digital para a glória socialnetworkmyfuckingass

você está perfeita na foto sua beleza adjetivada seu sorriso adjetivado seu cabelo adjetivado minha falsa poesia em descrever você na foto um milissegundo e centenas de palavras ligadas por uma força desconhecida que transforma a retina em máquina de escrever

te aprisionam em fotos invejoso te aprisiono em palavras ambos mentem e ainda assim deixamo-nos gozar com as fotos e pelas palavras

oi cansei-me das histórias cansei-me das nossas memórias cansei-me de novo do novo do velho estou velho oi você não crê que possamos ser diretos honestos e falsos sem subterfúgios novelescos sem arrependimentos jornalísticos sem histórias fantásticas oi o que somos juntos os dois depende de nós ou de todos a nossa volta oi nosso amor é nosso ou emprestamos dos livros

fotografei você nua não me excito quando vejo só quando toco

você é linda isso também pode ser uma fotografia

lamento por você se achar mais bonita nas fotos não estimo a bidimensão

seu cheiro não é uma fotografia é uma cilada

nunca te vi mais linda quando esquecemos nossas câmeras no carro estacionado no mirante

oi e sua foto insiste no silêncio



Escrito por Carlos Canhameiro às 23h54
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Ele com os braços amputados Ela nada

em seus pesadelos todos éramos sinceros e a solidão reinava inconteste e vitaliciamente

escrevi uma carta a um jovem ator

prezado jovem ator com o passar do tempo a única alteração que existirá em sua vida será em seu epíteto e então escreverei uma carta ao velho ator dizendo ser tarde demais para desistir daquilo que deveria ter feito quando ainda jovem

quero ter um milhão de amigos para o meu twitter poder bombar

Samanta era triste o que não a incomodava desses outros dias conheceu Felipe que era alegre e tampouco se incomodava ao passar daqueles outros dias desses Samanta deixou Felipe triste por não conseguir ser alegre

Sua avó morreu virgem repetia insistentemente meu avô Morreu Morreu Morreu Tenho certeza para lá das bandas da terra absoluta Sua avó era devota mulher direita comprometida trabalhadeira e na cama era um terror

Homens de virtude É isso que falta nesse mundo JoãoCarlosAlberto Homens de virtude Já eu acredito que nesse mundo MariaEduardaFernanda está em falta uma mulher que saiba amar AMAR MariaEduardaFernanda Amar como um homem

Descobri recentemente que o silêncio é intimidade Jamais fui tão íntimo da minha solidão

Vassilovitch morreu Não chore Ele cumpriu sua missão como poucos homens que conheci em vida Ele viveu até morrer

Hoje o mar não está para peixes então virei sereia e cantei



Escrito por Carlos Canhameiro às 01h40
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direito de resposta

ela disse fale honestamente sem reservas sem limites sem mágoas e sem acreditar que irá me magoar não me magoa não me incomoda não sou insensível minha sensibilidade irrompe quando sinto que estão falando comigo sem truques sem jogos sem armadilhas sem meio-termos sem desvios retóricos sem medo e sem agressividade Agora FALE

euteamo não é uma frase uma declaração um pedido de desculpas um galanteio precipitado uma tradução emocional ou sentimental euteamo é a língua das vísceras

não poderia falar dizer expressar escrever balbuciar murmurar cantar tartamudear proferir e sinônimos sinônimos sinônimos sobre esse indizível que percorre minhas veias tritura minha razão avacalha meus olhos corrompe meu tempo meu tempero minha saliva meu orgasmo e minhas enzimas É tão mais tão mais tão mais que tudo tudo TUDO fica pequeno fica simplório clichê bobagem tirinha dominical escombros entulhos e almoços solitários

dizem que basta ser simples não há simplicidade que se ajeite/encaixe numa pétala de rosa criada pelo pouso do seu olhar

é mais simples mais simples mais simples e o mundo incansável remonta os velhos clássicos nossos dramas são matéria-prima para artistas de segunda-mão repisarem reinterpretarem e enriquecerem assistimos a comédia/tragédia/melodrama e antônimos e binômios das nossas mazelas alegrias diárias sorrindo o soldo mal gasto em telas widescreen

é outro assunto é sempre outro assunto é sempre outro momento é sempre outra intensidade

não posso não te amar seria como acreditar que se meus olhos me fizessem pecar eu deveria incendiar roma ou dar a césar o que é de deus

minhas vísceras não sabem escrever mas tem as minhas mãos sob custódia



Escrito por Carlos Canhameiro às 21h44
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amor em tempo de amores ou pequenos solilóquios desapaixonados

minha mente decifrou o nosso amor ou o meu amor que talvez tenha gerado o seu amor ou o seu amor por mim que tenha criado o meu amor que hoje chamamos nosso amor ou chamo eu assim o amor que sinto de nosso ou seu e meu ou não nos amamos e nosso amor é um enigma a ser decifrado

não durmo há semanas meses talvez anos fecho os olhos deito na cama posso mesmo sonhar mas não dormir como convém a etimologia latina não descanso não me esqueço não desleixo-me não me abandono não morro e tragicamente não te mato no breu das retinas cobertas e do beijo doce de Morpheus

sou moderno na acepção natural da palavra sou dos nossos dias atual presente hodierno sou excessivamente fruto do meu tempo que carrega nos ombros costas cabeças pernas e panturrilhas todo o anti-moderno passado histórico e memorável ainda assim minhas vísceras se contorcem quando penso em você com outro homem

choro sem pudores ao ir ao supermercado ao comprar o jornal na banca ao estender o braço para o ônibus parar ao acender um cigarro com fósforos quebrados ao pagar a conta do jantar choro mesmo quando decido andar a pé tarde da noite ou correr logo após a madrugada choro quando sento no banco de uma pracinha semi-abandonada ao ver uma senhora na janela do segundo andar choro demais todos os dias e minhas entranhas desmancham-se de tanto choro ainda sim meus olhos permanecem secos

melhor não brincar com o amor porque ele é o dono da bola

escreveram por aí que diziam os gregos melhor para o homem é não nascer uma vez nascido melhor morrer fatalismo que combina mais com os portugueses a mim pouco importa se gregos troianos gajos ou Hamlets estão na terrível dúvida dívida com o ser ou morrer brasileiro que sou digo melhor para o homem é ele saber-se homem e uma vez homem melhor não amar outra vez amante melhor gozar



Escrito por Carlos Canhameiro às 12h39
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