Pequena peça em diversos Atos Madrugada sangrenta em Chinatown
Hostilidade em crise Mixórdias policiais Discursos cheios de contradições Palavras vazias
Aqui está o equívoco Senhora Green Não existem palavras vazias
Sempre me cansou discutir com esse rapaz Essas bobagens retóricas Essa tentativa de depurar cada sentença cada expressão
Escuta homenzinho É claro que não existem palavras vazias nem cheias É claro que tudo é força de expressão Compreende Força de expressão Precisamos parir de alguma forma o que está em gestação dentro de nós Seja usando palavras vazias Seja beijando uma boca carnuda Vem cá seu moleque Me beija e acabemos com essas discussões
A senhora Green era metida a sábia Ela sempre queria acabar uma discussão A senhora Green era por demais impaciente Seus lábios porém
O sangue não era tragado pelos bueiros Ondas viscosas Ratos enojados subiam pelas paredes Blacktall não conseguia acender seu cigarro Por isso amaldiçoava o mundo
Sou capaz de jurar que vi o sol nascer duas vezes no mesmo dia É verdade Não estava bêbado nem chapado
O que mais me cansa nesse seu marido Senhora Green são essas
Cale-se
Não tenho mais fôlego
O quanto poderíamos continuar nesta situação
Depende do tempo que deus nos conceder
Por favor
Nada mais espantava Blacktall que conseguira acender o cigarro e agora caminhava pisando em sangue com seu coturno solado de pneu conversando com ratos pendurados em janelas e cantando Strawberry Fields Forever
Escrito por Carlos Canhameiro às 15h36
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Penélope Vergueiro
Câmera de Vigilância Imagem em Preto e Branco Rua Vergueiro 1:11
Semáforo vermelho um automóvel avança cruza a avenida colide em um veículo estacionado o veículo estacionado tenta sair em retirada o primeiro automóvel colide novamente novamente novamente em marcha ré parece tentar uma fuga NÃO o veículo volta a colidir novamente estava apenas conseguindo mais velocidade
Não importa o que eu diga fale comigo não me pergunte onde estou quem sou como vou que horas são apenas fale comigo não desligue não grite não entenda escolha uma história me conte não pense conte qualquer história me faça rir não interessa não importa eu tenho crédito 30 unidades para você me contar um história
Penélope – Meus olhos são sangue em ebulição Escorro lágrimas odiosas Engato primeira Segunda Meus olhos são sangue em ebulição Choro vísceras apodrecidas Preciso de mais espaço Marcha Ré Primeira Meus olhos são sangue em ebulição A morte pode ser o princípio de toda a salvação Primeira Segunda Colisão
Atenção viaturas próximas à rua vergueiro esquina com a pedroso Acidente de carro envolvendo dois veículos Confusão no local
Penélope – Sinto os meus cabelos em suas mãos já as senti de outro modo Lasciva a agradar o cão desajeitado sedento de prazer sem controles Ele também puxava-os não com a força com que os puxa agora Você é MEU homem meus cabelos são teus como teus pelos são meus Meu corpo acompanha meus cabelos puxados e sou alçada da janela do MEU carro e sinto minhas pernas desfalecidas na avenida MEU rosto é lambido asperamente pelo asfalto que cobra sua parcela de sangue MEU sangue Ele grita em bufos e consigo ver as pernas da meretriz dejeto de abortos das mulheres perfuradas pela crendice das falsas simpatias das velhas tricoteiras ao sair do carro do MEU homem sua bunda torneada por jeans de segunda mão deslizando em rebolado tímido abandonando a cena
Você queria me matar Você destruiu meu carro Os dois carros Você quase me atropelou Você é uma vagabunda Você é estrume de vaca Você é gorda Você é feia Você me dá nojo Você estava me seguindo Você estava me vigiando Você tentou me matar Você destruiu os carros Você é louca Você é louca Você é a mulher mais horrorosa que já conheci
Alguém por favor tente evitar que aquele homem mate aquela mulher Alguém por favor chame a polícia Alguém por favor não deixe aquela mulher morrer Alguém por favor não deixe aquele homem deixe aquele homem matar aquela mulher que destruiu dois carros que quase atropelou aquele homem Alguém por favor deixe tudo acontecer Alguém por favor me diga quem é aquela mulher no telefone público
Penélope – Lambi sua axila quando depois do trabalho seu suor se espalhava por sua camisa amarrotada O sangue que seus murros estão arrancando do meu nariz não é pior do que o sangue que teu pau arrancou da minha buceta intocada Sua violência sempre me deu náuseas Sua língua sempre desferiu o pior e mesmo assim a beijei a chupei deixei que ela explorasse meu corpo porque você é MEU homem Não nasci gorda Não nasci velha Não lutei contra o tempo porque não entro em batalhas perdidas Você é MEU homem e assim você quis ser você me resgatou da casa dos meus pais Esta cidade é sua não minha Aceitei a nova moradia como aceitei o seu corpo suado sobre o meu aceitei o seu filho dentro do meu ventre O ventre da mulher é um covil de cobras Parimos homens como você Parimos prostitutas em jeans vagabundos Nossos úteros não são solidários Meu filho é teu esperma Destruo tudo que é seu meu dele
Meus créditos acabaram Ela me viu Ele me conquistou Vou para o escritório te ligo de lá Não pude evitar Ele me disse palavras bonitas que nunca ouvi nesta cidade cheia de pó
Flores abertas Olhos Fechados Pálpebras pétalas no chão Flores abertas Olhos fechados Seus olhos nunca mais serão Flores abertas Olhos Fechados Seus olhos nunca mais verão Flores abertas Eu ao teu lado.
O carro atingido parcialmente destruído o homem volta a conduzi-lo em retirada alta velocidade perdemos o contato o outro carro continua parado uma mulher no chão
Penélope – Ainda sinto o cheiro dele em meu corpo meu pescoço em minha roupa rasgada minha bolsa no chão o asfalto com sangue vidro borracha esse cheiro de pó de sujeira nunca levada pela chuva posso escutar um coração minha vida em pulsação o sentido me abandonando o semáforo verde amarelo vermelho a sirene da polícia não me dêem a mão NÃO ME TOQUEM RESTOS DE ANIMAIS FILHOS DE MULHERES COMO EU NÃO ME TOQUEM COM ESSAS MÃOS QUE CARREGAM ARMAS QUE MATAM OS HOMENS ERRADOS me deixem aqui com o cheiro daquele que foi MEU homem
Eu vi tudo seu guarda oficial tenente comandante o sinal fechou ela passou bateu bateu de novo deu ré bateu de novo ele tentou fugir Ele o homem que estava dirigindo o outro carro Ela bateu de novo fez o carro rodar atravessar a pista Ele abriu a porta ela tentou passar por cima dele Ele pulou ela bateu no carro dele de novo Eu vi tudo seu guarda escuta ela bateu bateu de novo acelerou queria matá-lo Certeza o trânsito parou Ele conseguiu tirá-la do carro e bateu nela bateu bateu de novo Eu vi tudo seu guarda policial tenente coronel Vocês chegaram tarde demais Ele fugiu Ninguém ajudou Tinha uma mulher no carro dele Eu vi tudo Ela desceu ficou ali no orelhão enquanto ela apanhava dele Ele bateu bateu de novo gritou Entrou no carro acelerou e foi embora A mulher não vi Todo mundo viu Ninguém fez nada
Estou no escritório Fiquei com a chave Ninguém vai me achar aqui Ninguém tem a chave A polícia está lá fora Estou escutando a sirene Eu sei Eu sei Ele trouxe um bombom um dia uma rosa no outro Jantamos Eu sei Ele é mais velho Poderia ser meu pai Eu sei Ela poderia ser minha mãe Eu sei Mas ele me deu um bombom e falou palavras bonitas Me beijou tão doce tão gostoso Fala comigo Vou ter que dormir aqui
Penélope – O que olha essa gente toda Sou o ódio de suas vidas ordinárias acumulado Sou a fera do tempo em que neste chão havia terra e não o sangue que não adentra o asfalto Sou o sonho fétido de uma vida feliz Sou a mãe que pariu um homem Sou homem também e perdi o MEU homem para uma mulher como EU Não me olhem porque todos somos o mesmo nada que rasteja por entre essas ruas na busca por um HOMEM que nos penetre que nos domine que nos explique Este semáforo os controla Vocês não passam O vermelho do meu sangue lambido pelo asfalto vocês pisam EU poderia esquecer Eu poderia voltar para casa Eu poderia perdoar Eu poderia amar meu filho e acreditar na beleza suja desta cidade cinza NÃO VOU Quero o SANGUE daquela que como eu carrega em si uma buceta sedenta
A senhora pode dar queixa A senhora pode processar A senhora pode pedir o divórcio A senhora pode ser condenada A senhora pode chamar testemunhas A senhora pode ir embora A senhora pode ver um médico A senhora está sangrando A senhora está com as roupas rasgadas A senhora está com os cabelos arrancados A senhora não pode entrar no escritório sem a chave
Penélope – A chave está com o MEU homem E a vagabunda está dentro deste escritório
Ligue para seu filho
Penélope – Não quero vê-lo
Posso testemunhar se quiser
Penélope – Não quero ajuda Não quero processos Não quero juízes advogados leis papeis controle Quero que as marcas que estão no meu pescoço estejam também no dela o MEU sangue no asfalto será também o sangue dela Ela quis o que era meu terá o que também é dela ARROMBEM esta porta
Não podemos senhora
A verdade não presta favores à ficção Estou deitada no asfalto entre os vidros cabelos restos de borracha e saliva Ainda está na memória das coisas os gritos que por aqui passaram Escapei do bolso do homem que me carregava Abro portas e sou encontrada ao lado do sangue que o asfalto regurgita por um casal de namorados que olharam e testemunharam o ódio do amor a fúria da paixão Estou em mãos que nunca me tocaram Os namorados me entregam como hóstia redentora à mão sedenta de vingança e como nunca me opus aos meus desígnios abro a porta que me foi dada como companheira desde que existo
Não pode o amor ser dividido Eu sei Ele era casado Eu sei Ele tem um filho Ela engordou Ela ficou feia Não havia mais interesse sexual Ele é um homem bonito para sua idade Alguém abriu a porta
Não sei senhor delegado. Ela disse que a porta tinha sido aberta. Ela soltou o gancho. Escutei uma série de barulhos. Gritos. Não sei. Às vezes parecia ela gritando. Eu também fiquei chamando ao telefone. Eu não sabia o que fazer. Eu moro longe demais do escritório. Achei que a polícia estava lá. Não sei o que aconteceu. Depois só escutei alguém chorando... Tão horrível o choro... Tanto desespero. Eu gritava pelo telefone... Eu não queria que nada de mal acontecesse à minha filha... Aquela mulher... Delegado... Aquela mulher não podia ter feito aquilo à minha filhinha... Onde estava a polícia?
Escrito por Carlos Canhameiro às 16h17
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Canções Envelhecidas
Aquele homem existia como versos inacabados de canções envelhecidas compostas por músicos mortos devido a overdoses de vida
Aquele homem sorria das tristezas todas anunciadas e descobertas com o sangue dos dias que pulsavam em estrelas cadentes invisíveis
Aquele homem brincava com a própria desordem e só encontrava repouso na união caótica das poesias sinfonias caleidoscópicas das imagens urbanas entre árvores acinzentadas
Engrenagem Dentes Roda Mecanismo Motor Controle Processamento
Aquele homem era parte corrompida de um sistema corrompido operando em perfeito compasso musical 2 por 4 em rimas decassílabas em tom sobre tom num pas de deux inexpressivo
Aquele homem não cria na felicidade não criara a tristeza não era cria dos dias passados e não morreria pelo dias futuros
Aquele homem fez uma pergunta inocente ao mais malicioso dos homens e das mulheres e a resposta o fez nascer homem e tudo então deixou de ser flor sentidos e amores
Aquele homem não disse nada em versos e mesmo assim compôs uma canção
Escrito por Carlos Canhameiro às 15h11
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A imortalidade é para os mortos Eu só queria falar sobre o Tenório que teve a infelicidade de ter um Tataravô Tenório e um Bisavô Tenório e um Avô Tenório e um pai Teodoro que rebelde deu ao filho o nome que não recebera do pai Eu só queria contar histórias e não perceber que todas as que imagino já foram escritas, ditas, encenadas, filmadas, desenhadas, cantadas, tocadas e hoje estão até em versões mínimas de 140 toques Eu queria saber usar os pontos finais as vírgulas os acentos graves e agudos conhecer as pessoas seja no singular seja no plural seja a primeira a segunda e até me dar bem com a terceira Eu queria ter casado ter filhos alugar um gato viajar de fusca plantar um pé de jaca no vaso da varanda do apartamento da cidade do interior de minas Eu só queria entender Eu só queria que minha cabeça produzisse um sentido menos caótico Eu só queria que o caos não reinasse Eu só queria ser sem deixar de ser É por demais difícil de aceitar o sol que em pouco tempo insistirá em brilhar seja janela adentro seja por trás da tempestade seja a noite em outra parte seja na face da lua na parte da bunda desnuda em uma praia qualquer Empatia por minha própria projeção de mim mesmo a caminho do nada do antes do depois do agora imperceptível Um mundo cheio de bobagens Uma desordem natural e desnecessária Imagens Imagens Imagens Eu só queria não temer os sonhos.
Escrito por Carlos Canhameiro às 02h33
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Histórias com Fim Mônica. Aos 17 perdeu a virgindade. Nádia. Casou-se. Simone. Bebia. Tereza. Com doze anos beijou um primo na boca. Sebastiana. Aos 15 virou prostituta. Rômulo era tímido silencioso introspectivo pouco falava filho único pai falecido quando ainda era muito jovem mãe trabalhadeira ausente persistente morreu de cirrose aos 47 anos quando Rômulo já era mocinho e apresentava pêlos nas axilas estudou como sempre disseram que deveria estudar trabalhou como sempre disseram que deveria trabalhar para formar o caráter enobrecer a alma pagar as contas da casa e garantir família era devoto de santa edwiges por ser impossível acreditar que haveria uma outra saída uma outra vida melhor mais cômoda e feliz Eu sempre quero matar minhas personagens. Por capricho quase divino. Um tesão no cérebro de ver uma palavra sofrer. Rômulo sangra. Rômulo chora. Rômulo não vê sentido na trajetória, no caminho, nas escolhas, nas margens e nas marginais. É tão deliciosamente sublime o poder prestidigitador de acabar com a vida de Rômulo. Minha personagem medíocre, vazia, incapaz de mudar, que pensa e não age que age sem pensar que age como pensa ou Ação. Matar. Rômulo não tem válvula de escape vai do trabalho para casa da casa para o trabalho e segue ou não segue esses desígnios invisíveis perturbadores Ah Rômulo, quanta impossibilidade nesses dias possíveis. Escreva Rômulo. Reinvente seus mundos. Explique-os. Explique-se. Vai Rômulo, não deixe abater-se. Alguém te dará a mão ou pelo menos um lápis uma folha de papel Rômulo não tem vã esperança o último egresso da caixa de pandora não afeta o mundo cubicular de Rômulo. E não importa o quanto de Rômulo há naquele que escreve. Importa que Rômulo pode ser morto no momento que aquele escreve. Não há segredo a ser revelado. Rômulo queria reinventar os clássicos deixar de ler estudar beber masturbar fumar cheirar nadar gozar Neste mundo de Rômulo o sol nasce duas vezes. Mas ele vive só uma. Rômulo morreu aos 45 cinco anos de câncer no pâncreas.
Escrito por Carlos Canhameiro às 21h49
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Ordinário Ele escondeu até o último momento O restaurante era rústico a comida simples temperada o vinho me cheirava extravagância Pensei que mal há alguma pequena extravagância na vida Ele conversou sorridente como sempre e não fosse o leve suor em sua testa em nada estava diferente dos nossos sempre jantares mensais em restaurantes rústicos com comidas simples Pedimos sobremesa e as extravagâncias começavam a ultrapassar o limite de “algumas” então toneladas de pensamentos desabaram sobre mim e eu sabia Ele iria me pedir em casamento Ela sorriu até quase o último momento O restaurante era aqueles que fazem comida caseira Bem é o que sempre está escrito nas placas de entrada ou no cardápio Para mim sempre tem o mesmo gosto Pedi vinho nunca bebo acho coisa de afrescalhado Tem lá seu gosto de suco de uva com cachaça mas não é uma boa cerveja Ela conversou como sempre e não fosse o maldito suor na minha cara acredito que estava indo bem Para não chamar tanta atenção pedi sobremesa que não sabia pronunciar o nome E então ela parou de sorrir e creio que entendeu tudo No convento fui uma freira feliz Abdiquei do sexo mas não abri mão da vaidade Alguns padres me possuíram em nome de deus Jesus e da virgem Maria Tudo para passar o tédio de algumas noites frias Eram péssimos amantes e desconfiei até o fim da minha vida que era por isso que se tornaram padres Pouco sabiam beijar Minhas irmãs na fé e na eucaristia não falavam sobre isso então falávamos sobre outras coisas Algumas vezes bebíamos vinho e tomávamos banho juntas Mas isso acontecia uma vez por ano e nada mais Nunca rezei Na boléia de um caminhão não tem nada mais o que fazer além de ouvir música remoer o futuro e tocar adiante É lento por vezes rápido poucas outras vezes Calor frio vento conversa fiada pelo rádio e manter a música tocando De vez em quando uma biscate de posto de gasolina um traveco de acostamento um chapa debaixo de viaduto e dá-lhe rádio ligado e som alto Nosso Senhor que me perdoe mas queria ver Ele mandar o filho ser caminhoneiro Na cruz se passa só um dia No caminhão a vida inteira
Escrito por Carlos Canhameiro às 01h40
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Coração Vaga Mundo Tenho entre meus braços todos os corações do mundo aperto-os contra meu peito fraco jorro sangue entre minhas pernas menstruo as dores sabores odores Meu rosto pálido desanda trágico os corações sangrados são blush em minhas bochechas sardentas lágrimas venosas escorrem dos meus olhos azuis Lanço-me no espaço entre a janela e o chão os corações palpitam descompassados altíssima pulsação flutuamos na queda explodimos no chão Há sangue nas paredes nos carros na calçada enxurrada dos corações do mundo esvaindo-se em bueiros levanto vermelha piso vermelho artéria inerte aMorta Ainda sinto nos braços o pulsar do mundo meu peito vermelho arfa sem desespero meu rosto manchado não sabe expressar mais nada Meus olhos vermelhos Não carrego no peito nenhum coração do mundo Meu coração vaga-mudo Minhas pegadas vermelhas dirão onde deixei de estar
Escrito por Carlos Canhameiro às 00h01
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Aptidões Aos oito anos me sabia fotógrafo o porquê não sei ao certo e não há muito que explicar disse a minha mãe o que sabia que queria ser e honestamente lhe pedi uma câmera fotográfica após pequena insistência ela emprestou-me a dela com dizeres e cuidados mil e com o reforço do alto custo do filme e da revelação que então por isso economizasse nos meus disparos e como conselho de mãe aos oito anos retumba como mandamentos em pedras de ouro fiz a economia necessária e aconselhada mesmo carregando a câmera comigo quase durante todo o tempo raríssimas vezes escolhi apertar o botão e só o fazia na certeza de que o momento era não sei bem o que era só sei que algo em mim dizia ser um momento para uma foto para gerar um quadro compartilhar um átimo imprimir um sonho parir uma realidade não sei era o momento e nesse momento eu apertava o botão e depois girava para a próxima pose e assim se deu durante seis meses fui econômico cuidadoso observador raríssimas vezes fui rápido impreciso ou impulsivo e quando o marcador da câmera apontou o número 36 sabia que um deleite estava terminando e outro iria começar velhas escolhas seriam então impregnadas num papel escolhi mais dois tiros um pouco displicente porque a ansiedade de acabar a película ganhou da procura por novos motivos fotográficos entretanto o filme continuou a rodar e quando a máquina mostrou um ponto vermelho no lugar dos números sabia que o filme já deveria ter acabado pouca experiência tinha com máquinas fotográficas mas a memória sempre traiçoeira não me enganava desta vez eram 36 poses e não mais desesperado procurei minha mãe que já havia esquecido por completo do empréstimo e sem remorso ou qualquer consternação me revelou que não havia filme na máquina que havia tirado e deixado que eu brincasse um pouco com a câmera Meu pai me emprestou sua câmera de vídeo quando eu tinha doze anos e reunindo três colegas fizemos um filme sobre o princípio das amizades e seus desdobramentos estudamos cada fala roubada em geral dos livros da minha mãe escolhemos cada local para gravar pois jamais conseguiríamos editar e durante um ano programamos tudo cada cena cada fala cada local sua ordem suas pausas e ensaiamos e ensaiamos e quando estava tudo certo para não ter erro gravamos e fizemos um filme de 25 minutos e algo nos dizia que aquilo poderia mudar nossas vidas caso meu irmão não tivesse usado a mesma fita para gravar um filme erótico que passou na madrugada da sexta Minha irmã era compositora e compôs centenas de músicas morreu num acidente cotidiano digno de rodapé de página de jornal meu irmão mais velho colocou todas as partituras em seu caixão antes de enterrá-la Meu tio foi faxineiro a vida inteira Meu gato fazia cocô na caixinha de areia e miava depois
Escrito por Carlos Canhameiro às 00h46
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Tonterias Bianca olhava seu nome em livretos vendidos em banca de jornal. Gostava. Não dos livretos. Do nome exposto. BIANCA. Ela não andava de ônibus, tinha horror ao cheiro dos passageiros. Odores acumulados em dias de trabalho. Bianca não trabalhava, herdara fortuna da avó. Neta única. Filha única. Bianca não tinha amigas. Não precisava. Marcelo era velho. Joana era feia. Simone era virgem. Gomez era estranho. Bianca ria ao ver Simone lendo BIANCA. Sabia que Joana gostava de Gomez porque via na feiura dela uma ligação com a estranheza dele. Nunca olhava para Marcelo porque tinha um certo receio de mostrar-se interessada. Não tinha interesse. Poderia comprá-lo. Marcelo transou com Simone. Por compaixão e por desfrute mítico. Gomez chamou Bianca para sair que não soube usar palavra alguma para ignorá-lo então usou o silêncio. Joana consolou Simone quando Marcelo não a quis mais. Bianca comprou Marcelo e mandou devolver. Gomez transou com Simone depois que soube da desvirginação. Joana continuou feia. E tempos depois niguém nunca mais soube notícia alguma dessas pessoas e ainda assim BIANCA continua sendo vendida em bancas de jornal.
Escrito por Carlos Canhameiro às 18h53
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Sit down Comedy Carlos começa a crer que o melhor é deixar de acreditar Começa a desconfiar de suas mais certas teorias Começa a condenar os pensamentos mais libertários Começa a rir de todas as razões para chorar Começa a contradizer todas as afirmativas anteriores Começa o jogo que acabou nos penaltis Carlos sabe que centenas de frases podem ser escritas Outras centenas deverão ser apagadas e milhares que jamais existirão E melhor destino dessas palavras não nascidas Algo assim de alone together Algo assim insatisfação garantida ou seu dinheiro de volta Algo como há um erro no sistema e identificá-lo não resolve Algo como somos melhores na imagem do espelho Algo como Carlos começa a crer que o melhor é deixar de acreditar Another day just breathe Diz a canção Talvez seja uma solução: criar solução para os outros Inventar frases, escrever livros, cantar devaneios… O inexplicável está cada vez mais claro Carlos continua com medo do escuro.
Escrito por Carlos Canhameiro às 22h22
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Agora ou NADA Santa do pau oco com as mãos cortadas pela promessa não cumprida repousa no oratório feito com garrafas pet Esquecida na sala de estar-jantar-quarto-de-dormir-closet Madalena reza obstinada pelo fracasso da memória Salve virgem nossa senhora do rosário do meu calvário das minhas lembranças mortas das minhas imagens borradas do meu passado osteoporoso das pessoas em preto em branco os chapéus em reverência aos “bons dias” dos galanteadores sem face Menina já trajando moça sem seio aparente atravessa em corrida calculada a mesma sala de estar-jantar-quarto-de-dormir-closet-playground em reverência assimilada gesticula uma cruz no peito diante da Santa conservada em garrafas pet Mãe a bisa está virando os olhos de novo igual a maluca da TV Vai dar merda Salve virgem nossa senhora do calvário que nunca fui santa e desde nunca fui feliz e desde nunca fui mulher e desde nunca fui mãe e desde nunca fui completa e desde nunca fui raiz Não sou árvore Não sou flor Sou velha Passa daqui menina que não tenho tempo nem idade para suas tonterias Menina em impaciência trajada sem pruridos tardios em dedo em riste FUCK bisa Você é velha Encardida Louca Fedida Cara de velha Encardida Mãe a bisa está falando aquelas coisas de novo Salve virgem nossa senhora velha encardida Já fui moça e já fui menina Escuta filhote de rapariga Deus te abençoe que também já fui atrevida e essa Santa maneta é testemunha que não somos diferentes em nada A vida que te pulsa por essas veias me machuca e se minha memória me castiga é porque disseram que era melhor antes Era melhor noutro lugar Era melhor noutro tempo Salve calvário virgem rosário nossa Meu lugar é esse e meu tempo é esse Salve de me sepultarem viva Lançam sobre mim sem dó nem um cadinho de piedade meu passado como terra sobre meu corpo desusado e querem me fazer crer que onde já estive e que o tempo gasto foram os melhores da minha vida ainda viva Salve todos deste embaraço A bisa está vomitando de novo E se pensamento pensado e planejado em rasante sinapse a cabeça da menina grassasse ela pensaria o assim pensado Morra velha e nos dê mais espaço Salve desvirginada Santa que senta no pau nada oco Arranca essa chaga da minha cabeça despenteada Sou agora ou não fui nada Liga a TV para a Bisa liga Leite de rosas Sala de estar-tv A Santa observa a reprise da novela
Escrito por Carlos Canhameiro às 18h49
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Samambaias Maternas Letícia chorou no casamento da irmã. Não havia emoção. Os olhos borrados, a lágrima negra, o risco deformando o rosto. Era a aberração que atraia Letícia e por ela choraria a vida inteira. Não foi à festa. Sozinha, andou. O cachorro de pelúcia tinha o nome do pai. A samambaia esquecida na área de serviço fora batizada com o nome da mãe. O microondas era o irmão. Na porta da geladeira reportagens de crianças suicidas. Letícia tinha amigos e havia fotos deles coladas no banheiro. Quiropata desde os dezoito anos. Não era a profissão, eram os corpos. As peles. Os dedos. A invasão consentida. As marcas desconhecidas. Não era excitação. Letícia era antropofágica a sua maneira. Ouvia música russa. Sambava sozinha em delírio controlado. Comprava discos de vinil espalhava-os pela sala. Não comia carne vermelha. Não bebia saquê. Não lia bula de remédio. Letícia chorava tranqüila sem saber o que poderia fazê-la feliz. Morreu num acidente de carro. Sozinha. Tentava trocar o CD. Deixou um diário escrito a mesma coisa todos os dias: “Acordei”. Letícia foi esquecida dois dias depois do acidente. A Samambaia morreu. O cachorro de pelúcia doado para algum orfanato. O microondas ficou com o irmão. Uma senhora divorciada ficou com os clientes de Letícia que foi cremada e suas cinzas jogadas num vaso sanitário.
Escrito por Carlos Canhameiro às 23h00
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Cena 13 Oi. Palavra. Oi. A mesma palavra. Muito obrigado por perguntar. Ela está muito bem. Muito bem, obrigado. Trouxe as coisas que você NUNCA me deu. Só quero de volta aquilo que te dei. Não posso dar-te aquilo que me foi dado. Então não vou aceitar nada de volta. Não estou pedindo que você aceite... Estou devolvendo. Ou dando-te, se preferir. Tudo aquilo que você nunca me deu... Talvez te faça falta... Talvez você ainda não tenha... Talvez você possa dar a alguém como estou dando a você. Você mente. Estou falando a verdade! Você mente. Palavra. Ela mente. E, no entanto, diz a verdade. Onde você quer chegar com isso? Você se acha bonita? Ela mente. Você se acha bonita. Pouco importa. Importa. Porque ou somos honestas ou somos bonitas. De que lado você está? Do seu lado. Do lado errado. Não é possível ser sincera e bonita? Não posso olhá-la. E digo-te por que. Porque sou honesta. Porque ao olhá-la eu começo a acreditar... Prefiro acreditar só nos meus ouvidos. Não posso acreditar na sua beleza. Ouça-me. Sou honesta e, dizem: bonita. Poderia amá-la, um dia. Poderia. Não sei precisar quando. Acreditaria no seu amor e o devolveria com o tempo. Não acredite em mim. Sou bonita. Não acredito agora... Só no seu amor passado. E mesmo assim devolveria. Você mente. Espero que nunca ame alguém... Espero que o amor jamais bata a sua porta... E se bater, que você esteja surda... Que você esteja cega... Que sua beleza tenha desaparecido... Que sua honestidade tenha mentido... Porque o amor vai sufocar-te e você a ele. E irá devolvê-lo como um quebra-cabeça incompleto. Vai devolvê-lo como um presente novo... Vai aceitá-lo com dádiva e cuspi-lo com desprezo... Vai engravidar e depois desembaraçar-se como cria desmamada... Eu sei... Você mente... Trouxe as coisas que você NUNCA me deu. Só quero de volta aquilo que te dei. Ela vai chorar. Dou-te minhas lágrimas. Você as criou. São mais suas do que minha. Pode se lavar com elas. Salvar sua garganta seca. Afogar-se naquilo que é mais seu do que meu. São suas. Dou-te. Deveriam costurar os olhos das mulheres para que morressem nos dilúvios de suas próprias desgraças. Tem os olhos rasos. Você tem lágrimas gordas. Você quem me deu. Então, devolva-me. Só posso dar-te aquilo que nunca me deu. Palavra. Adeus.
Escrito por Carlos Canhameiro às 23h06
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Autobiografia Fred era esse o nome não um diminutivo carinhoso não um apelido preguiçoso Chamavam-no Fred Em qualquer conversa em qualquer ocasião em repetidas situações Não importava Gritavam Fred Fred escrevia autobiografias de autores inexistentes para purgar as diferentes maneiras que diziam o seu nome Enlouquecia com a sanidade diária que lhe atingia com o passar do tempo Cápsulas de vômitos de todos os seu antepassados como vitaminas Fred morria e sabia que seu câncer era a própria vida Havia quem poderia interessar-se pelos segredos de Fred que ele com acuidade os protegia Fred matara quando antes de moço uma galinha Cortara o rabo de um cachorro que só caminhava na rua Espiara a irmã no banho sem excitar-se Tentara envenenar uma professora de História com tachinhas banhadas em urina de porco Trepara com uma prima depois de experimentarem maconha Apaixonara pela esposa do irmão e numa noite de bebedeira tornou-se pai de seu sobrinho E quem o visse ou chamasse Fred em nada era diferente de outro ou outros exceto aquela diferença que incute em nós a péssima idéia de sermos únicos Fred era esse tipo de único comum Ordinário Com escrúpulos necessários para manter-se em dia com suas bobagens Era em suas autobiografias que descontava a raiva que revelava a suposta podridão tão conhecida de todos Nas linhas digitadas que podia fingir ser quem era Esconder-se às claras Revelar-se em mentiras Fred nem mesmo chamava Fred Só em suas autobiografias Fred era viciado em cocaína E não havia noite em claro Dormia cedo quando em casa Estava sempre fora Ansiava por companhias Teorias perdidas Noções de mundo Crises insolucionáveis Bobagens de família Conspirações de desafetos Inveja Injustiça Tesão reprimido Alguma data importante evento marcado algo que o fizesse esperar Fred ansiava pela lua nova Fred intuía que se morresse agora ou depois do agora neste momento ou noutro seguinte Seria apenas mais esse Fred autobiográfico por natureza comprada e os dias vindouros só seriam novos dias para novos Fred em suas velhas autobiografias de autores inexistentes.
Escrito por Carlos Canhameiro às 22h18
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Máquina de lavar roupas Priscilla era assim: calma. Singela. Sorria tímida. Quase nunca falava. Falava, mas quase nunca. Não tinha grandes aspirações. Não se contaminava com novelas. Tinha seios médios. Bonitos. Poucas sardas que ressaltavam a pequena e deliciosa curva entre eles. Usava decote. Não por vaidade: propaganda mesmo. Trajava vestidos, quase sempre. Exceto quando dormia. Exceto quando fodia. Priscilla era assim: fodia sempre. Adorava um toque sem propósito. Um roçar de peles desconhecidas. Uma excitação nos olhos. Alguém que acendesse seu cigarro que ela nunca fumava. Era o gesto. O homem com fogo. O cigarro nos lábios. E depois, em sua cama, preferia sugar a cabeça de um pênis do que a ponta de um cigarro. Gostava do esperma na língua do que a fumaça nos pulmões. Mas isso, o homem fogo só descobriria se tivesse fogo para acender o cigarro de Priscilla que insistia em não fumar. Priscilla era assim: um pouco puta. Devassa. Na medida. Não narrava a foda, mas às vezes exagerava na gemida. Tirava partido dos seios. Deixava morder a bunda. Não arranhava as costas mas se espremia com força. Não tinha posição preferida. Exigia o gozo: de ambos. Exigia um minuto sobre o corpo dele. Cansada. Precisava do cheiro do suor. Braços envoltos. Gozava com beijos leves na coxa. Priscilla era assim: não fazia anal. Exceto por vaidade. Não dizia eu te amo. Exceto por necessidade. Não dormia fora. Exceto por falta de grana. Não deixava gozar dentro. Exceto casos especiais. Homem demais. Gostoso demais. Que fode demais. Que sabe o que faz. Então o sêmem ficaria guardado: um pouco por pouco tempo. Não se arrependia. E mesmo uma transa sem graça era compensada com uma taça de vinho. Fosse o homem desajeitado, de menos, Priscilla acendia um cigarro. Priscilla era assim: um dia casada. Noutro dia, mãe! Noutro dia trepava na escada do prédio. Noutro dia dava banho no rebento. Noutro dia gozava junto com o marido. Noutro dia chupava gostoso o pau do vizinho. Não tinha pruridos. Priscilla não tinha regras. Fazia compras no supermercado e assistia pecinhas de teatro com os dois filhos. Se visse um ator pelado, masturbava-se tranqüila no sanitário do escritório. Transou com o chefe, o encarregado e com o amigo do marido. Juntos. Priscilla não era dada a posses. Priscilla era assim: adorava ver a máquina de lavar roupas funcionando.
Escrito por Carlos Canhameiro às 15h15
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