Autobiografia Fred era esse o nome não um diminutivo carinhoso não um apelido preguiçoso Chamavam-no Fred Em qualquer conversa em qualquer ocasião em repetidas situações Não importava Gritavam Fred Fred escrevia autobiografias de autores inexistentes para purgar as diferentes maneiras que diziam o seu nome Enlouquecia com a sanidade diária que lhe atingia com o passar do tempo Cápsulas de vômitos de todos os seu antepassados como vitaminas Fred morria e sabia que seu câncer era a própria vida Havia quem poderia interessar-se pelos segredos de Fred que ele com acuidade os protegia Fred matara quando antes de moço uma galinha Cortara o rabo de um cachorro que só caminhava na rua Espiara a irmã no banho sem excitar-se Tentara envenenar uma professora de História com tachinhas banhadas em urina de porco Trepara com uma prima depois de experimentarem maconha Apaixonara pela esposa do irmão e numa noite de bebedeira tornou-se pai de seu sobrinho E quem o visse ou chamasse Fred em nada era diferente de outro ou outros exceto aquela diferença que incute em nós a péssima idéia de sermos únicos Fred era esse tipo de único comum Ordinário Com escrúpulos necessários para manter-se em dia com suas bobagens Era em suas autobiografias que descontava a raiva que revelava a suposta podridão tão conhecida de todos Nas linhas digitadas que podia fingir ser quem era Esconder-se às claras Revelar-se em mentiras Fred nem mesmo chamava Fred Só em suas autobiografias Fred era viciado em cocaína E não havia noite em claro Dormia cedo quando em casa Estava sempre fora Ansiava por companhias Teorias perdidas Noções de mundo Crises insolucionáveis Bobagens de família Conspirações de desafetos Inveja Injustiça Tesão reprimido Alguma data importante evento marcado algo que o fizesse esperar Fred ansiava pela lua nova Fred intuía que se morresse agora ou depois do agora neste momento ou noutro seguinte Seria apenas mais esse Fred autobiográfico por natureza comprada e os dias vindouros só seriam novos dias para novos Fred em suas velhas autobiografias de autores inexistentes.
Escrito por Carlos Canhameiro às 22h18
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