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Cena 13

Oi.

Palavra.

Oi.

A mesma palavra.

Muito obrigado por perguntar.

Ela está muito bem.

Muito bem, obrigado.

Trouxe as coisas que você NUNCA me deu.

Só quero de volta aquilo que te dei.

Não posso dar-te aquilo que me foi dado.

Então não vou aceitar nada de volta.

Não estou pedindo que você aceite... Estou devolvendo. Ou dando-te, se preferir. Tudo aquilo que você nunca me deu... Talvez te faça falta... Talvez você ainda não tenha... Talvez você possa dar a alguém como estou dando a você.

Você mente.

Estou falando a verdade!

Você mente.

Palavra.

Ela mente. E, no entanto, diz a verdade.

Onde você quer chegar com isso?

Você se acha bonita?

Ela mente.

Você se acha bonita.

Pouco importa.

Importa. Porque ou somos honestas ou somos bonitas. De que lado você está?

Do seu lado.

Do lado errado.

Não é possível ser sincera e bonita?

Não posso olhá-la. E digo-te por que. Porque sou honesta. Porque ao olhá-la eu começo a acreditar... Prefiro acreditar só nos meus ouvidos. Não posso acreditar na sua beleza.

Ouça-me. Sou honesta e, dizem: bonita.

Poderia amá-la, um dia.

Poderia.

Não sei precisar quando.

Acreditaria no seu amor e o devolveria com o tempo.

Não acredite em mim. Sou bonita.

Não acredito agora... Só no seu amor passado.

E mesmo assim devolveria.

Você mente. Espero que nunca ame alguém... Espero que o amor jamais bata a sua porta... E se bater, que você esteja surda... Que você esteja cega... Que sua beleza tenha desaparecido... Que sua honestidade tenha mentido... Porque o amor vai sufocar-te e você a ele. E irá devolvê-lo como um quebra-cabeça incompleto. Vai devolvê-lo como um presente novo... Vai aceitá-lo com dádiva e cuspi-lo com desprezo... Vai engravidar e depois desembaraçar-se como cria desmamada... Eu sei... Você mente...

Trouxe as coisas que você NUNCA me deu.

Só quero de volta aquilo que te dei.

Ela vai chorar.

Dou-te minhas lágrimas. Você as criou. São mais suas do que minha. Pode se lavar com elas. Salvar sua garganta seca. Afogar-se naquilo que é mais seu do que meu. São suas. Dou-te.

Deveriam costurar os olhos das mulheres para que morressem nos dilúvios de suas próprias desgraças.

Tem os olhos rasos.

Você tem lágrimas gordas.

Você quem me deu.

Então, devolva-me.

Só posso dar-te aquilo que nunca me deu.

Palavra.

Adeus.



Escrito por Carlos Canhameiro às 23h06
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