Samambaias Maternas Letícia chorou no casamento da irmã. Não havia emoção. Os olhos borrados, a lágrima negra, o risco deformando o rosto. Era a aberração que atraia Letícia e por ela choraria a vida inteira. Não foi à festa. Sozinha, andou. O cachorro de pelúcia tinha o nome do pai. A samambaia esquecida na área de serviço fora batizada com o nome da mãe. O microondas era o irmão. Na porta da geladeira reportagens de crianças suicidas. Letícia tinha amigos e havia fotos deles coladas no banheiro. Quiropata desde os dezoito anos. Não era a profissão, eram os corpos. As peles. Os dedos. A invasão consentida. As marcas desconhecidas. Não era excitação. Letícia era antropofágica a sua maneira. Ouvia música russa. Sambava sozinha em delírio controlado. Comprava discos de vinil espalhava-os pela sala. Não comia carne vermelha. Não bebia saquê. Não lia bula de remédio. Letícia chorava tranqüila sem saber o que poderia fazê-la feliz. Morreu num acidente de carro. Sozinha. Tentava trocar o CD. Deixou um diário escrito a mesma coisa todos os dias: “Acordei”. Letícia foi esquecida dois dias depois do acidente. A Samambaia morreu. O cachorro de pelúcia doado para algum orfanato. O microondas ficou com o irmão. Uma senhora divorciada ficou com os clientes de Letícia que foi cremada e suas cinzas jogadas num vaso sanitário.
Escrito por Carlos Canhameiro às 23h00
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