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Devaneios de uma Mente Entorpecida por Chocolate Barato e Café Descafeinado


Agora ou NADA

Santa do pau oco com as mãos cortadas pela promessa não cumprida repousa no oratório feito com garrafas pet Esquecida na sala de estar-jantar-quarto-de-dormir-closet Madalena reza obstinada pelo fracasso da memória

Salve virgem nossa senhora do rosário do meu calvário das minhas lembranças mortas das minhas imagens borradas do meu passado osteoporoso das pessoas em preto em branco os chapéus em reverência aos “bons dias” dos galanteadores sem face

Menina já trajando moça sem seio aparente atravessa em corrida calculada a mesma sala de estar-jantar-quarto-de-dormir-closet-playground em reverência assimilada gesticula uma cruz no peito diante da Santa conservada em garrafas pet

Mãe a bisa está virando os olhos de novo igual a maluca da TV Vai dar merda

Salve virgem nossa senhora do calvário que nunca fui santa e desde nunca fui feliz e desde nunca fui mulher e desde nunca fui mãe e desde nunca fui completa e desde nunca fui raiz Não sou árvore Não sou flor Sou velha Passa daqui menina que não tenho tempo nem idade para suas tonterias

Menina em impaciência trajada sem pruridos tardios em dedo em riste FUCK bisa

Você é velha Encardida Louca Fedida Cara de velha Encardida Mãe a bisa está falando aquelas coisas de novo

Salve virgem nossa senhora velha encardida Já fui moça e já fui menina Escuta filhote de rapariga Deus te abençoe que também já fui atrevida e essa Santa maneta é testemunha que não somos diferentes em nada A vida que te pulsa por essas veias me machuca e se minha memória me castiga é porque disseram que era melhor antes Era melhor noutro lugar Era melhor noutro tempo Salve calvário virgem rosário nossa Meu lugar é esse e meu tempo é esse Salve de me sepultarem viva Lançam sobre mim sem dó nem um cadinho de piedade meu passado como terra sobre meu corpo desusado e querem me fazer crer que onde já estive e que o tempo gasto foram os melhores da minha vida ainda viva Salve todos deste embaraço

A bisa está vomitando de novo

E se pensamento pensado e planejado em rasante sinapse a cabeça da menina grassasse ela pensaria o assim pensado Morra velha e nos dê mais espaço

Salve desvirginada Santa que senta no pau nada oco Arranca essa chaga da minha cabeça despenteada Sou agora ou não fui nada

Liga a TV para a Bisa liga Leite de rosas

Sala de estar-tv A Santa observa a reprise da novela



Escrito por Carlos Canhameiro às 18h49
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