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Devaneios de uma Mente Entorpecida por Chocolate Barato e Café Descafeinado


Aptidões

Aos oito anos me sabia fotógrafo o porquê não sei ao certo e não há muito que explicar disse a minha mãe o que sabia que queria ser e honestamente lhe pedi uma câmera fotográfica após pequena insistência ela emprestou-me a dela com dizeres e cuidados mil e com o reforço do alto custo do filme e da revelação que então por isso economizasse nos meus disparos e como conselho de mãe aos oito anos retumba como mandamentos em pedras de ouro fiz a economia necessária e aconselhada mesmo carregando a câmera comigo quase durante todo o tempo raríssimas vezes escolhi apertar o botão e só o fazia na certeza de que o momento era não sei bem o que era só sei que algo em mim dizia ser um momento para uma foto para gerar um quadro compartilhar um átimo imprimir um sonho parir uma realidade não sei era o momento e nesse momento eu apertava o botão e depois girava para a próxima pose e assim se deu durante seis meses fui econômico cuidadoso observador raríssimas vezes fui rápido impreciso ou impulsivo e quando o marcador da câmera apontou o número 36 sabia que um deleite estava terminando e outro iria começar velhas escolhas seriam então impregnadas num papel escolhi mais dois tiros um pouco displicente porque a ansiedade de acabar a película ganhou da procura por novos motivos fotográficos entretanto o filme continuou a rodar e quando a máquina mostrou um ponto vermelho no lugar dos números sabia que o filme já deveria ter acabado pouca experiência tinha com máquinas fotográficas mas a memória sempre traiçoeira não me enganava desta vez eram 36 poses e não mais desesperado procurei minha mãe que já havia esquecido por completo do empréstimo e sem remorso ou qualquer consternação me revelou que não havia filme na máquina que havia tirado e deixado que eu brincasse um pouco com a câmera

Meu pai me emprestou sua câmera de vídeo quando eu tinha doze anos e reunindo três colegas fizemos um filme sobre o princípio das amizades e seus desdobramentos estudamos cada fala roubada em geral dos livros da minha mãe escolhemos cada local para gravar pois jamais conseguiríamos editar e durante um ano programamos tudo cada cena cada fala cada local sua ordem suas pausas e ensaiamos e ensaiamos e quando estava tudo certo para não ter erro gravamos e fizemos um filme de 25 minutos e algo nos dizia que aquilo poderia mudar nossas vidas caso meu irmão não tivesse usado a mesma fita para gravar um filme erótico que passou na madrugada da sexta

Minha irmã era compositora e compôs centenas de músicas morreu num acidente cotidiano digno de rodapé de página de jornal meu irmão mais velho colocou todas as partituras em seu caixão antes de enterrá-la

Meu tio foi faxineiro a vida inteira

Meu gato fazia cocô na caixinha de areia e miava depois



Escrito por Carlos Canhameiro às 00h46
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