Meu Perfil
BRASIL, Homem, de 26 a 35 anos



Histórico


Categorias
Todas as mensagens
 Avaliação
 Devaneios de Última Hora


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 II d.pedro II
 A Última Quimera
 CHALAÇA a peça
 Minhas Crônicas
 Blog do Juca
 Malvados
 Cotidiano de Luis Canhameiro


 
Devaneios de uma Mente Entorpecida por Chocolate Barato e Café Descafeinado


Penélope Vergueiro

Câmera de Vigilância
Imagem em Preto e Branco
Rua Vergueiro
1:11

Semáforo vermelho um automóvel avança cruza a avenida colide em um veículo estacionado o veículo estacionado tenta sair em retirada o primeiro automóvel colide novamente novamente novamente em marcha ré parece tentar uma fuga NÃO o veículo volta a colidir novamente estava apenas conseguindo mais velocidade

Não importa o que eu diga fale comigo não me pergunte onde estou quem sou como vou que horas são apenas fale comigo não desligue não grite não entenda escolha uma história me conte não pense conte qualquer história me faça rir não interessa não importa eu tenho crédito 30 unidades para você me contar um história

Penélope – Meus olhos são sangue em ebulição Escorro lágrimas odiosas Engato primeira Segunda Meus olhos são sangue em ebulição Choro vísceras apodrecidas Preciso de mais espaço Marcha Ré Primeira Meus olhos são sangue em ebulição A morte pode ser o princípio de toda a salvação Primeira Segunda Colisão

Atenção viaturas próximas à rua vergueiro esquina com a pedroso Acidente de carro envolvendo dois veículos Confusão no local

Penélope – Sinto os meus cabelos em suas mãos já as senti de outro modo Lasciva a agradar o cão desajeitado sedento de prazer sem controles Ele também puxava-os não com a força com que os puxa agora Você é MEU homem meus cabelos são teus como teus pelos são meus Meu corpo acompanha meus cabelos puxados e sou alçada da janela do MEU carro e sinto minhas pernas desfalecidas na avenida MEU rosto é lambido asperamente pelo asfalto que cobra sua parcela de sangue MEU sangue Ele grita em bufos e consigo ver as pernas da meretriz dejeto de abortos das mulheres perfuradas pela crendice das falsas simpatias das velhas tricoteiras ao sair do carro do MEU homem sua bunda torneada por jeans de segunda mão deslizando em rebolado tímido abandonando a cena

Você queria me matar Você destruiu meu carro Os dois carros Você quase me atropelou Você é uma vagabunda Você é estrume de vaca Você é gorda Você é feia Você me dá nojo Você estava me seguindo Você estava me vigiando Você tentou me matar Você destruiu os carros Você é louca Você é louca Você é a mulher mais horrorosa que já conheci

Alguém por favor tente evitar que aquele homem mate aquela mulher Alguém por favor chame a polícia Alguém por favor não deixe aquela mulher morrer Alguém por favor não deixe aquele homem deixe aquele homem matar aquela mulher que destruiu dois carros que quase atropelou aquele homem Alguém por favor deixe tudo acontecer Alguém por favor me diga quem é aquela mulher no telefone público

Penélope – Lambi sua axila quando depois do trabalho seu suor se espalhava por sua camisa amarrotada O sangue que seus murros estão arrancando do meu nariz não é pior do que o sangue que teu pau arrancou da minha buceta intocada Sua violência sempre me deu náuseas Sua língua sempre desferiu o pior e mesmo assim a beijei a chupei deixei que ela explorasse meu corpo porque você é MEU homem Não nasci gorda Não nasci velha Não lutei contra o tempo porque não entro em batalhas perdidas Você é MEU homem e assim você quis ser você me resgatou da casa dos meus pais Esta cidade é sua não minha Aceitei a nova moradia como aceitei o seu corpo suado sobre o meu aceitei o seu filho dentro do meu ventre O ventre da mulher é um covil de cobras Parimos homens como você Parimos prostitutas em jeans vagabundos Nossos úteros não são solidários Meu filho é teu esperma Destruo tudo que é seu meu dele

Meus créditos acabaram Ela me viu Ele me conquistou Vou para o escritório te ligo de lá Não pude evitar Ele me disse palavras bonitas que nunca ouvi nesta cidade cheia de pó

Flores abertas
Olhos Fechados
Pálpebras pétalas no chão
Flores abertas
Olhos fechados
Seus olhos nunca mais serão
Flores abertas
Olhos Fechados
Seus olhos nunca mais verão
Flores abertas
Eu ao teu lado.

O carro atingido parcialmente destruído o homem volta a conduzi-lo em retirada alta velocidade perdemos o contato o outro carro continua parado uma mulher no chão

Penélope – Ainda sinto o cheiro dele em meu corpo meu pescoço em minha roupa rasgada minha bolsa no chão o asfalto com sangue vidro borracha esse cheiro de pó de sujeira nunca levada pela chuva posso escutar um coração minha vida em pulsação o sentido me abandonando o semáforo verde amarelo vermelho a sirene da polícia não me dêem a mão NÃO ME TOQUEM RESTOS DE ANIMAIS FILHOS DE MULHERES COMO EU NÃO ME TOQUEM COM ESSAS MÃOS QUE CARREGAM ARMAS QUE MATAM OS HOMENS ERRADOS me deixem aqui com o cheiro daquele que foi MEU homem

Eu vi tudo seu guarda oficial tenente comandante o sinal fechou ela passou bateu bateu de novo deu ré bateu de novo ele tentou fugir Ele o homem que estava dirigindo o outro carro Ela bateu de novo fez o carro rodar atravessar a pista Ele abriu a porta ela tentou passar por cima dele Ele pulou ela bateu no carro dele de novo Eu vi tudo seu guarda escuta ela bateu bateu de novo acelerou queria matá-lo Certeza o trânsito parou Ele conseguiu tirá-la do carro e bateu nela bateu bateu de novo Eu vi tudo seu guarda policial tenente coronel Vocês chegaram tarde demais Ele fugiu Ninguém ajudou Tinha uma mulher no carro dele Eu vi tudo Ela desceu ficou ali no orelhão enquanto ela apanhava dele Ele bateu bateu de novo gritou Entrou no carro acelerou e foi embora A mulher não vi Todo mundo viu Ninguém fez nada

Estou no escritório Fiquei com a chave Ninguém vai me achar aqui Ninguém tem a chave A polícia está lá fora Estou escutando a sirene Eu sei Eu sei Ele trouxe um bombom um dia uma rosa no outro Jantamos Eu sei Ele é mais velho Poderia ser meu pai Eu sei Ela poderia ser minha mãe Eu sei Mas ele me deu um bombom e falou palavras bonitas Me beijou tão doce tão gostoso Fala comigo Vou ter que dormir aqui

Penélope – O que olha essa gente toda Sou o ódio de suas vidas ordinárias acumulado Sou a fera do tempo em que neste chão havia terra e não o sangue que não adentra o asfalto Sou o sonho fétido de uma vida feliz Sou a mãe que pariu um homem Sou homem também e perdi o MEU homem para uma mulher como EU Não me olhem porque todos somos o mesmo nada que rasteja por entre essas ruas na busca por um HOMEM que nos penetre que nos domine que nos explique Este semáforo os controla Vocês não passam O vermelho do meu sangue lambido pelo asfalto vocês pisam EU poderia esquecer Eu poderia voltar para casa Eu poderia perdoar Eu poderia amar meu filho e acreditar na beleza suja desta cidade cinza NÃO VOU Quero o SANGUE daquela que como eu carrega em si uma buceta sedenta

A senhora pode dar queixa A senhora pode processar A senhora pode pedir o divórcio A senhora pode ser condenada A senhora pode chamar testemunhas A senhora pode ir embora A senhora pode ver um médico A senhora está sangrando A senhora está com as roupas rasgadas A senhora está com os cabelos arrancados A senhora não pode entrar no escritório sem a chave

Penélope – A chave está com o MEU homem E a vagabunda está dentro deste escritório

Ligue para seu filho

Penélope – Não quero vê-lo

Posso testemunhar se quiser

Penélope – Não quero ajuda Não quero processos Não quero juízes advogados leis papeis controle Quero que as marcas que estão no meu pescoço estejam também no dela o MEU sangue no asfalto será também o sangue dela Ela quis o que era meu terá o que também é dela ARROMBEM esta porta

Não podemos senhora

A verdade não presta favores à ficção Estou deitada no asfalto entre os vidros cabelos restos de borracha e saliva Ainda está na memória das coisas os gritos que por aqui passaram Escapei do bolso do homem que me carregava Abro portas e sou encontrada ao lado do sangue que o asfalto regurgita por um casal de namorados que olharam e testemunharam o ódio do amor a fúria da paixão Estou em mãos que nunca me tocaram Os namorados me entregam como hóstia redentora à mão sedenta de vingança e como nunca me opus aos meus desígnios abro a porta que me foi dada como companheira desde que existo

Não pode o amor ser dividido Eu sei Ele era casado Eu sei Ele tem um filho Ela engordou Ela ficou feia Não havia mais interesse sexual Ele é um homem bonito para sua idade Alguém abriu a porta

Não sei senhor delegado. Ela disse que a porta tinha sido aberta. Ela soltou o gancho. Escutei uma série de barulhos. Gritos. Não sei. Às vezes parecia ela gritando. Eu também fiquei chamando ao telefone. Eu não sabia o que fazer. Eu moro longe demais do escritório. Achei que a polícia estava lá. Não sei o que aconteceu. Depois só escutei alguém chorando... Tão horrível o choro... Tanto desespero. Eu gritava pelo telefone... Eu não queria que nada de mal acontecesse à minha filha... Aquela mulher... Delegado... Aquela mulher não podia ter feito aquilo à minha filhinha... Onde estava a polícia?



Escrito por Carlos Canhameiro às 16h17
[] [envie esta mensagem] [ ]




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]